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Rokjesdag - o polêmico dia das pernas de fora na Holanda

Atualizado: 21 de Jun de 2020

Você já ouviu falar no Rokjesdag ("dia da sainha" em tradução literal)? A primeira menção a esse dia foi feita no filme de Francois Truffaut, de 1977, "Lomme qui aimait les femmes", mas ele se popularizou em 1996, quando o jornalista Martin Bril usou o termo em um artigo do Het Parool.


Em 2016, foi lançado um filme holandês intitulado Rokjesdag, dirigido por Johan Nijenhuis.

Mas afinal, o que é Rokjesdag?


Em princípio, trata-se do primeiro dia do ano em que o dia está ensolarado, sem nuvens, a temperatura perto de 20°, e por isso é possível usar minissaia sem meia-calça. Como o sol por aqui é artigo de luxo, sair de casa com as pernas de fora é tipo o grande dia da libertação após um longo e gelado inverno. Funciona como uma declaração oficial de que a primavera finalmente chegou.


Os holandeses provavelmente tornariam Rokjesdag um feriado oficial se o clima imprevisível da Holanda não tornasse impossível estabelecer uma data fixa para o evento. Um ano ele

pode ser em abril, no ano seguinte em maio e no ano seguinte em abril, maio, junho ou julho. É o único evento que pode ser afetado pela teoria do caos. É aquela velha teoria de que "uma borboleta pode bater as asas no Brasil, causar um furacão em Hong Kong e Rokjesdag na Holanda".


Apesar de não ter dia certo, é meio que consenso entre os holandeses que ao menos 50% das mulheres precisam estar com as pernas à mostra para que o dia seja considerado Rokjesdag. A conotação dada por Bril ao Rokjesdag foi tão impressionante que o termo logo ultrapassou suas colunas. Tornou-se um fenômeno social. Com um sol suave, começava-se a perceber um zumbido pelas ruas: hoje seria dia de saia?  Jornais regionais começaram até a enviar repórteres para as ruas comerciais para ver se as mulheres já estavam deixando suas calças em casa.

Faça o teste: digite #rokjesdag no Instagram e veja a diversidade de postagens.

Mas, pouco a pouco, os comentários sobre os corpos das mulheres começaram a incomodar. A indústria da moda e dos produtos de beleza também resolveram surfar a onda e se aproveitar do evento para divulgar seus produtos. Anúncios para veganos, cremes anticelulite, a nova coleção de verão da loja xpto, salões de bronzeamento... tudo em nome de se conseguir um corpo mais perfeito e à prova de olhares cobiçosos.


E com isso o significado cultural do Rockjesdag começou a mudar.

Eram outros tempos...

No final do século XX, pouco se ouvia falar em feminismo. As mulheres ainda fingiam que era um elogio receber um assobio na rua. Uma aparência sexy era um sinal de força, de autoconfiança. Quem não se lembra de Bridget Jones? Um dia, ela coloca uma saia curta e uma blusa transparente no escritório, e passa a flertar com o chefe. E então, como num passe de mágica, ela deixa de ser atrapalhada e se torna um sucesso. Era uma época em que o apelo sexual tornava a mulher poderosa. E Rokjesdag era uma ode a essas mulheres fortes e confiantes.


Mas a ênfase em uma aparência sexy naquele período não era apenas empoderadora. A feminilidade era celebrada, mas tinha que atender a requisitos rigorosos. Apesar de ser uma fonte de poder, o corpo da mulher precisava ser constantemente trabalhado e refinado para atender à cada vez mais estreita ideia de atratividade: era preciso perder peso, depilar-se, tornear os músculos e estar com o bronzeado em dia.

Isso não desapareceu completamente.  Os kits de sobrancelhas, preenchimentos labiais e dietas malucas continuam fazendo sucesso. As revistas femininas continuam dando dicas aos leitores sobre a importância de um corpo "à prova de biquíni". Mas cada vez mais mulheres fazem suas escolhas para agradar a si mesmas, e não aos outros. O machismo e o sexismo não deixaram de existir, mas hoje muitas mulheres sabem que são muito mais do que um corpo, e estão cada vez mais conscientes de que não precisam da aprovação do homens. Conversas negativas sobre a aparência das mulheres imediatamente levam a uma chuva de comentários indignados nas mídias sociais. Assobios ou comentários indelicados nas ruas da Holanda podem até gerar multa. Hoje em dia, é até bem comum ver meninas, mulheres e senhoras passeando de bicicleta em suas minissaias, sem que isso gere nenhuma comoção.


Aos poucos, estamos conquistando a verdadeira liberdade: poder vestir o que quiser, quando quiser! O Roksjedag pode ser ressignificado e continuar simbolizando o início da primavera, quando as mulheres podem usar saias, macacões, longos vestidos floridos e o que mais desejarem, e os homens podem (por que não?) usar seus shorts, chinelos e bonés.


Afinal, a primavera está aí para ser celebrada! Concorda?


Eu usei a minha saia pela primeira vez neste final de semana, quando a temperatura chegou a 19° por aqui. E você, de que maneira comemorou o início da primavera?



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