• Joy

Responsabilidade social em tempos de Covid-19

Atualizado: 7 de Abr de 2020



Acordei hoje com uma sensação estranha. É claro que não é a primeira vez que passamos o dia em casa, mas é muito diferente quando escolhemos aquele dia da preguiça, em que nem nos damos ao trabalho de tirar o pijama, de quando temos que ficar em casa por uma imposição externa. Também não dá pra fingir que estamos em férias, já que museus, cinemas e restaurantes estão fechados e, mesmo que não estivessem, sabemos que o contato físico com outras pessoas precisa ser evitado.

É como se estivéssemos de castigo. Aquele momento em nos botam em um canto para pensar no que fizemos de errado e não podemos sair até termos aprendido alguma coisa.


Então, bóra usar essa imensidão de tempo disponível para fazer tudo aquilo que precisamos, ou que temos vontade, e nunca sobra tempo pra fazer. Isso inclui desligar o piloto automático e repensar velhos hábitos.

Primeiro, é preciso entender um pouco sobre esse novo vírus.

Eu não sou da área de saúde, não entendo nada de infectologia, mas tenho acompanhado de perto as notícias, por fontes confiáveis, e o que entendi é que o que diferencia esse vírus dos demais, causadores de outros tipos de gripe, não é a sua letalidade, mas sim a sua capacidade de se espalhar. Assim, o grande problema não é que essa gripe mata mais do que as outras, mas sim que esse vírus se propaga em progressão geométrica, e por isso muito mais rapidamente do que os outros.


Ah, você pode pensar, mas eu sou jovem e saudável, então não estou no grupo de risco.


E você provavelmente está certo. Apenas 20% das pessoas infectadas têm sintomas mais sérios e precisam de atendimento médico. E você, que é jovem e saudável, ainda que tenha um quadro mais grave muito provavelmente sairá dessa sem muitos problemas. A questão é que, necessitando de atendimento médico e hospitalar, você estará ocupando um lugar que poderia ser destinado a alguém que faz parte do grupo de risco, e como o número de infectados cresce exponencialmente a cada dia, não é preciso ser gênio para entender que não haverá médicos, leitos de hospitais e medicamentos para todos.


Cada um de nós tem o poder - e a responsabilidade - de se afastar e salvar todos os outros.

E aí é que está a grande questão. Todo o porquê de se manter em isolamento é esse: cada um tem a responsabilidade pessoal de evitar ficar doente, para que isso não impacte na saúde do próximo. Simples, não?


É uma situação chata. Isso é indiscutível. Mas, se levarmos em consideração tudo o que nossos antepassados já enfrentaram, pensando nas famílias judias que tiveram que ficar escondidas por meses, ou até mesmo anos (quem não conhece a história de Anne Frank?), naqueles que tiveram filhos e maridos enviados para a guerra, e tantas outras situações terríveis ao longo da história, será que temos mesmo tanto do que reclamar?


Vamos combinar que, depois de olhar para o passado, reclamar de ter que ficar em casa, com Internet, Netflix, uma infinidade de jogos e passatempos, livros, atividades diversas e passeios ocasionais por espaços abertos, mesmo que sem contato com outras pessoas, parece chilique de criança birrenta.


Basta um pouco de boa vontade e organização para botar as coisas em perspectiva e criar um plano de sobrevivência que possa nos salvar do convívio com nós mesmos! Eu reuni as crianças e construímos juntos uma rotina para os próximos dias, com atividades para todos os gostos e necessidades (meus filhos têm entre 11 e 15 anos, por isso criamos uma rotina sem horários pré-determinados, que nos dará um pouco mais de liberdade).


Mas a nossa responsabilidade não se limita apenas a ficarmos em casa o máximo possível. Basta uma ida rápida ao supermercado para ter a sensação de estarmos vivendo um apocalipse! Há prateleiras e mais prateleiras vazias. Faltam macarrão, arroz, farinha, frutas e legumes, enlatados e... papel higiênico! (Se alguém mais esperto do que eu tiver alguma ideia do porquê dessa corrida alucinada por papel higiênico e puder me dar uma luz, serei eternamente grata. Juro que isso foge à minha compreensão.)

Um dos principais supermercados daqui utiliza, em suas ações promocionais, o personagem de um hamster e o slogan "hamsteren", palavra que em holandês significa algo como "acumulação" (no sentido de tomar tudo para si) e simboliza o hábito de os hamsters estocarem comida em suas bochechas. É engraçadinho em tempos normais, mas agora parece que todos por aqui estão seguindo isso ao pé da letra e fazendo compras como se não houvesse amanhã (literalmente).






Todos os supermercados têm enviado comunicados por e-mail e em suas redes sociais e não se cansam de dizer que os seus centros de distribuição estão cheios, que não há motivo para pânico e que as pessoas devem fazer compras normalmente. A falta de produtos é apenas resultado de uma questão logística, já que não estão dando conta de repor as mercadorias na mesma velocidade que estão sendo compradas. Mas cadê que as pessoas entendem?

Isso demonstra não apenas como o ser humano tende a desenvolver um comportamento de manada durante uma crise, mas também como muitos são mesquinhos e incapazes de olhar além do próprio umbigo para entender que há outras pessoas que estão sendo prejudicadas.

Supermercados, farmácias e restaurantes estão fazendo entregas em domicílio sem contato humano, para evitar aglomerações e compras desenfreadas.

E não são somente os supermercados que estão sofrendo com a superlotação. Quando foi dada a orientação de que todos os bares, restaurantes, saunas, academias etc. deveriam ser fechados às 18h do dia 15 de março, filas enormes se formaram nas portas dos... coffeeshops! - pra quem não sabe, os coffeeshops são os locais autorizados a vender maconha por aqui. Afinal, tudo é uma questão de prioridades :/


Esse é o coffeeshop da minha cidade pouco antes da hora de fechamento.
Cada um de nós pode fazer a sua parte.

Mas não dá pra generalizar e achar que tudo está uma droga. Nessas horas difíceis, vemos também muitas iniciativas bacanas. São inúmeros relatos de pessoas se propondo a ajudar as pessoas idosas a fazer compras e oferecendo-se para bater um papo virtual. A rede de supermercados Plus está até se organizando para vender os estoques dos mercados locais e ceder um espaço para que os próprios funcionários dos mercados façam a venda. É aquela velha história: se dermos as mãos e cada um fizer um pouquinho, logo sairemos dessa, juntos e fortalecidos.


E a gente sabe que não é fácil manter a sanidade em situações como essa. Serão tempos difíceis, e precisamos saber cuidar do nosso corpo e de nossa mente. Compartilho com vocês uma meditação simples (em inglês), publicada pela @headspace, que pode ajudar a equilibrar as emoções. É tempo de parar, refletir e nos preparar para o que ainda está por vir.



Acima de tudo, precisamos manter a cabeça fora d'água. Informe-se sempre por fontes confiáveis, esteja antenado, mas converse sobre outros assuntos, programe encontros virtuais com pessoas queridas, procure adaptar a sua rotina ao que é possível nesse momento, mas sem deixar de fazer aquilo que gosta.


Também pode ajudar conhecer a Ong Action for Happiness. Eles têm um trabalho incrível (em inglês) que ajuda a manter o foco, a atenção e a consciência naquilo que é importante. É possível baixar o app e receber lembretes diários, ou baixar um calendário com sugestões. Neste momento, vale tudo para manter a paz de espírito.


Para ajudar, segue um resumo sobre as principais medidas de proteção pessoal / contenção do vírus:

- lave frequentemente as mãos, com sabão e por 20 segundos;


- espirre e tussa na parte interna do cotovelo;


- evite contato social (mantenha distância de pelo menos 1,5m de outras pessoas);


- evite usar transporte público e, se possível, trabalhe de casa;


- vá ao médico apenas se estiver com febre e falta de ar;


- cuidado com anti-inflamatórios - principalmente Ibuprofeno - que podem agravar a infecção;


- mantenha os ambientes bem ventilados.


Segundo a Folha de São Paulo, a partir de 17 de março as fronteiras da União Europeia, que inclui 27 países, além da Islândia, Suíça, Noruega e Liechtenstein, estarão fechadas por pelo menos 30 dias. É preciso entender que essa é uma crise sem precedentes, que os governos não têm o poder de superar sem a colaboração de cada um de nós.


Dizem que é em tempos de crise que se conhece a verdadeira natureza humana. E não há nada mais verdadeiro. É preciso (re)fazermos uma análise profunda de nossos valores e buscarmos resgatar a nossa humanidade, entender que a vida de cada um é valiosa e que cada um de nós tem uma responsabilidade enorme na preservação do bem comum. Cuidar da sua saúde é também cuidar do próximo!


É triste termos que passar por isso, mas confio que tudo caminha sempre da melhor forma, e com um propósito maior. Vamos unir nossas forças e elevar nossas energias, enviando energias positivas para o planeta, acreditando no poder de cura do amor.


Estamos juntos nessa. Eu, você e todos nós.



"Gostaria de terminar com este apelo: com todas as incertezas por aí, uma coisa é absolutamente clara: a tarefa que estamos enfrentando é muito grande e temos que fazer isso com 17 milhões de pessoas. Juntos, superaremos esse período difícil. Cuide-se. Estou contando com você."  - Primeiro-Ministro Rutte em seu discurso na televisão esta noite, 16 de março de 2020.

103 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

©2020 by Joy in Dutch - all rights reserved.