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Patrimônio histórico e herança cultural - o que precisamos aprender com o passado

Atualizado: 22 de Jun de 2020

Em geral, o patrimônio cultural é motivo de orgulho. É uma herança história que traz à lembrança algo valioso, algo que é motivo de orgulho e que é preciso preservar. Mas, às vezes, essa herança pode também se tornar uma pedra no sapato. É o que vemos acontecendo em muitas partes do mundo, quando as pessoas começam a questionar o quanto determinados monumentos ou figuras históricas realmente merecem reinar absolutos e imponentes no meio das praças públicas.


Normalmente, essas estátuas foram erguidas em um período específico e por razões específicas. E elas enviam uma mensagem clara: "Essa pessoa é um exemplo a ser seguido, alguém de quem nos orgulhamos e de quem vale a pena lembrar".


O que acontece é que, com o passar do tempo e uma mudança no contexto histórico, as estátuas podem tornar-se repentinamente um símbolo do contrário: "Essa pessoa representa tudo aquilo que repudiamos".


E o que fazer então diante de uma situação dessas?


Westfries Museum, em Hoorn. Foto: ikhouvanhoorn.nl

Em 2014, o Museu Westfries em Hoorn, na Holanda, recebeu o Prêmio Patrimônio Cultural / Europa Nostra pela sua resposta a um debate público sobre a estátua de Jan Pietersz Coen (1587-1629), Governador Geral da Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC). A estátua, um monumento nacional, ficava em frente ao museu na praça principal da cidade.


Não cabe aqui entrar em detalhes sobre a história de Coen. Sua trajetória não é muito diferente das histórias de muitos conquistadores que trouxeram fama e riqueza ao seu país, mas não sem deixar um rastro de mortes e destruição por onde passou.


O que aconteceu foi que, em 2011, um grupo de cidadãos de Hoorn pediu ao Conselho da Cidade para remover a estátua. Na opinião deles, Coen era um assassino em massa, que usava a violência como meio de estabelecer o monopólio da VOC no comércio de especiarias nas Índias Orientais.

O pedido de remoção da estátua levou a um debate em todo o país. Não apenas sobre o próprio monumento, mas também sobre questões maiores: "Como lidar com o passado colonial holandês?", "O que fazer com as estátuas criadas no espírito nacionalista do final do século XIX?", "Como julgar os atos de figuras como Coen, e que conjunto de padrões morais deve ou não deve ser usado?".

O debate público nas ruas, nos jornais, na televisão nacional e nas mídias sociais foi feroz e passional e, no geral, as pessoas tinham uma opinião muito contundente sobre o assunto. Coen era um vilão ou um herói, não existia meio termo. Não havia espaço para nuances e também foi possível perceber uma grande falta de conhecimento histórico no debate.

Para o Museu Westfries, um museu municipal que se apresenta como um Museu da Idade de Ouro holandesa, o debate sobre a estátua de Coen surgiu como um presente dos deuses. De repente, a Era de Ouro estava na moda e nos lábios de todos.

O museu respondeu rapidamente com um projeto multimídia: O caso Coen. Um exemplo impressionante do que deve ser um museu participativo, aberto às necessidades da comunidade local, envolvente e criativo na maneira como se propõe a aumentar a conscientização sobre o patrimônio cultural.



O caso Coen (de zaak Coen)


O ponto de partida foi enxergar a necessidade de muitas pessoas tomarem parte no debate sobre a estátua e apresentarem uma opinião sobre o ex-governador geral. Para responder a essa necessidade, o museu assumiu o papel de motivador e facilitador, sem julgar as diferentes opiniões. Foram apresentados fatos históricos e opiniões diferentes sobre Coen de uma maneira atraente, explicando como e por que a imagem de Coen havia mudado ao longo dos anos. Com essas informações, as pessoas poderiam então formar suas próprias opiniões.

Um segundo objetivo era criar uma plataforma permanente de informações sobre Coen, que poderia ser usada em debates futuros, por turistas que se perguntam quem é o cara da estátua e, em geral, por todos que desejam saber mais sobre essa interessante figura histórica.

O cerne do projeto era uma exposição na forma de um julgamento. Um formato ideal para apresentar visões diferentes e motivar as pessoas a acolherem opiniões opostas. Como em um julgamento, o visitante do museu foi confrontado com muitas evidências (objetos), apresentado a testemunhas da defesa e da acusação (historiadores e jornalistas com opiniões diferentes). O julgamento foi liderado pelo 'juiz' Maarten van Rossem, um famoso historiador holandês e personalidade televisiva. O visitante do museu assumiu o papel de membro do júri e foi convidado a apresentar um veredicto sobre a acusação: "Afinal, Jan Pietersz Coen merece ou não uma estátua?".

Este formato foi comprovado como um grande sucesso. O visitante do museu sentiu-se convidado a participar e a dar uma opinião. Nunca houve tanta discussão na sala de exposições do museu.

A resposta do público ao caso Coen foi muito boa. Quase 10 mil visitantes participaram da exposição e atuaram como membros do júri, ajudando a decidir se a estátua deveria ser removida ou não. O veredito: 67% dos visitantes julgaram que a estátua não deveria ser removida, por diferentes razões. Os principais argumentos eram de que era preciso julgar figuras históricas pelos padrões morais de seu tempo, concluindo que a remoção da estátua não cobriria as páginas ruins da história.

No meio da praça Roode Steen, no centro da cidade de Hoorn, está a estátua de Jan Pieterszoon Coen. Foto: ikhouvanhoorn.nl

Dias atuais


A estátua do governador geral Jan Pietersz Coen ainda está na praça principal de Hoorn. No final, o conselho da cidade também decidiu que não queria removê-la. Mas o texto do painel de informações na estátua foi alterado. O Museu Westfries escreveu um novo texto mais equilibrado, no qual são mencionadas diferentes visões sobre o governador geral. O novo painel de informações na base da estátua possui um código QR que dá acesso ao site do projeto Coen e a um número de telefone. Se as pessoas ligam para o número, chegam ao correio de voz de Coen, pedindo que deixem uma mensagem para ele.



Nas últimas semanas, em razão do protesto mundial contra o racismo após a morte violenta do americano George Floyd, a discussão sobre a estátua de JP Coen em Hoorn voltou à tona.


Atualmente, existe novamente um debate público sobre se a estátua de Jan Pietersz Coen deve ser removida do espaço público. Um grupo do conselho da cidade de Hoorn sugeriu que a estátua recebesse um lugar no Museu Westfries, mas o Museu declarou que é neutro na discussão, que o seu papel é apenas fornecer informações para que as pessoas possam analisar a situação e chegarem a suas próprias conclusões.


Enfim, o fato é que o passado transatlântico da escravidão e a história colonial são uma parte importante da história holandesa. Na minha opinião, algo muito pouco discutido por aqui, inclusive nas escolas, onde esse debate deveria ser fomentado desde cedo, e que certamente ajudaria em discussões como a da tradição dos Zwarte Pieten, por exemplo.


Os Zwarte Pieten (Pedros Pretos) são os ajudantes do Sinterklaas (uma espécie de Papai Noel holandês). Todo ano há uma discussão feroz por aqui. De um lado, aqueles que defendem que essa tradição precisa ser mantida, já que nada tem de racista. De outro lado, aqueles que entendem que o black face, junto a uma imagem caricata e a uma certa irresponsabilidade associada aos Pieten são racismo em sua forma pura. Só de ver a foto, não é preciso se estender muito na explicação para que a coisa toda possa ser entendida, certo? - Foto: showbird.com

Existe inclusive um instituto holandês chamado de NiNsee (Instituto Nacional do Passado e Legado Holandês da Escravidão), que é um centro de conhecimento que coleta, gerencia e desenvolve conhecimento sobre a história do passado colonial e escravagista da Holanda. O NiNsee é uma das primeiras redes na Holanda a se destacar publicamente por promover a história transparente de toda a história do passado sombrio do país. Mas o debate certamente precisa ser ampliado. Com urgência.


Recentemente, saiu uma reportagem sobre a vandalização de estátuas em vários lugares do país e a opinião do primeiro-ministro holandês, que é formado em História, a respeito (em inglês).


Não há dúvida de que o passado não pode ser apagado. Mas é preciso lembrar que ele existe para nos ensinar, sejam aspectos positivos ou negativos. Aprender História significa aprender como chegamos ao ponto em que estamos hoje, com todos os acertos que devem ser copiados e todos os erros que jamais devem ser cometidos novamente.


Qual é a sua opinião a respeito? Compartilhe com a gente nos comentários.

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