• Joy

Anne Frank, a mais famosa vítima do Holocausto

Atualizado: 22 de Jun de 2020

Anne Frank na escrivaninha de sua casa, em 1941.

A adolescência já é, por si só, um período difícil. Imagine ser adolescente e ter que viver escondida dentro de alguns poucos cômodos com mais sete pessoas, sem poder fazer barulho e sob o medo constante de serem descobertos.


Em seu diário, Anne registrou não somente a sua visão de um mundo que parecia cruel e injusto, mas também o dia a dia e os sonhos de uma menina que estava sendo privada de sua juventude.


“Sei o que quero, tenho um objetivo, tenho opiniões, uma religião e amor.

Deixe-me ser eu mesma e então ficarei satisfeita.”

Anne Frank, O Diário de Anne Frank, 11 de abril de 1944

Annelies Marie Frank nasceu em Frankfurt, na Alemanha, em 12 de junho de 1929. Aos quatro anos, para fugir da política antissemita de Hitler, Anne mudou-se para Amsterdam com seu pai, sua mãe e sua irmã, três anos mais velha.

Anne tinha uma saúde frágil, ficava constantemente de cama, mas possuía uma personalidade extrovertida e energética. Era muito curiosa, alegre, sincera e vaidosa, além de ter uma imaginação fértil e criativa.

A família Frank: Margot, Edith, Otto e Anne.

A mãe de Anne, Edith, e a irmã, Margot, eram mais religiosas, mas Anne era mais pragmática, assim como Otto, seu pai. Ela colecionava fotos das famílias reais da Holanda e da Inglaterra e gostava de brincar de voetje van de vloer (uma brincadeira infantil holandesa parecida com amarelinha) na praça que fica em frente ao seu antigo apartamento, onde hoje existe uma estátua em sua homenagem. Nos finais de ano, celebrava a chegada do Sinterklass (uma espécie de Papai Noel holandês), gostava de comer oliebollen (um doce holandês que lembra um grande bolinho de chuva) e de patinar no gelo.


No verão, Anne adorava ir com a família da amiga Hanna Elisabeth Pick-Goslar (que no diário teve seu nome trocado para Lies Goosens) para Zandvoort, uma cidade holandesa também conhecida como “Pérola à beira-mar”. É a fotografia dessa casa de veraneio que Anne mantinha na parede sobre sua cama no esconderijo.


Reprodução do quarto de Anne Frank e Fritz Pfeffer no anexo secreto.

Já na escola, Anne deixava transparecer sua paixão pela escrita. Quando indagada por algum colega o que tanto escrevia em seu diário, respondia: "Não é da sua conta!". Seu sonho, quando crescesse, era ser jornalista. Escritora compulsiva, Anne usou um diário, dois cadernos e mais de 300 folhas avulsas de papel colorido para escrever e reescrever suas memórias. Seus registros diários cobrem 779 dias de vida, dos quais 753 dias confinados atrás de um armário de arquivo no prédio do escritório do seu pai.

Já ouvi relatos de que Anne era uma menina fútil e mimada, que somente se interessava por moda e atrizes de cinema, e que só ficou famosa porque era de uma família abastada. Acho que esse é um relato cruel e mesquinho, se considerarmos que Anne era apenas uma menina que, apesar de ter roubadas grande parte da sua infância e juventude, tinha sonhos e vontades como qualquer outra garota da sua idade. Quem leu o diário pode inclusive afirmar que Anne tinha uma profundidade de pensamentos e sentimentos que iam muito além de sua pouca idade.

Com um estilo de escrita ao mesmo tempo sensível e envolvente, de uma honestidade brutal, Anne demonstra que tinha todas as qualidades necessárias para realizer o seu sonho de se tornar uma grande jornalista após o fim da Guerra. É um livro tão completo, abrange tantas áreas diferentes, que pode despertar em cada um que o lê algo que o toca pessoalmente, não importa a idade.

Uma das páginas escritas por Anne. Em exposição no museu "Casa de Anne Frank".

Mas, acima de tudo, Anne era somente mais uma garota judia como tantas outras que sofreram os absurdos do Holocausto. Sua história é importante porque é a história de cada judeu que viveu e morreu durante esse período tão triste da história. Sua voz é a voz de milhões de outras pessoas que, de uma forma ou de outra, viveram os horrores de uma perseguição desumana e sem sentido.

Margot também escreveu um diário mas, ao contrário de Anne, que o deixou para traz quando foram presas, ela o colocou na bagagem, que foi confiscada quando chegaram a Auschwitz. O diário de Margot se perdeu para sempre, mas em uma carta enviada a uma amiga que morava nos Estados Unidos, ela relatou sua preocupação: “Sempre ouvimos rádio porque estamos num momento difícil. Por termos fronteira com a Alemanha e sermos pequenos (referindo-se à Holanda), nunca nos sentimos seguros.”

O anexo secreto

Os pais de Anne fizeram várias viagens secretas ao esconderijo, durante meses, para deixar tudo preparado para uma longa estadia. Mas nada poderia tê-los preparado para a realidade opressiva de viver isolado do mundo exterior. A sobrevivência de todos eles dependia de quatro leais empregados de Otto Frank que arriscavam a vida para levar comida, roupas, livros e notícias para todos. Durante o dia, era preciso manter silêncio absoluto, para evitar que os funcionários da loja no andar de baixo desconfiassem de algo.

“Temos de nos manter absolutamente quietos, feito estátuas.

Quem haveria de pensar, três meses atrás, que a espoleta Anne

teria que ficar sentada, sem falar, durante horas a fio —

e, mais difícil ainda, que ela conseguiria?”,

escreveu Anne em outubro de 1942.


Durante os anos em que estiveram escondidos, Anne e sua família dividiram os poucos cômodos do anexo com mais quatro judeus: o casal Van Pels e o filho Peter, e Fritz Pfeffer, um dentista conhecido dos Frank. A convivência com tantas personalidades distintas no esconderijo não era fácil, e Anne descreve em seu diário as dificuldades de convivência em uma situação tão precária.


Anexo secreto. Imagem: Sandro Castelli

1) Estante de arquivos erguida na frente da porta de acesso ao anexo secreto, tornando o esconderijo um local imperceptível aos funcionários do armazém e a possíveis visitantes.

2) Único banheiro disponível no anexo. Não era permitido usar a descarga enquanto havia funcionários trabalhando no armazém, porque qualquer barulho poderia denunciá-los. Da mesma forma, os banhos só eram permitidos uma vez por semana, sempre aos domingos de manhã. Como não havia chuveiro, tomavam banho de caneca.

3) Sala comum e cozinha. Meia hora era todo o tempo que tinham para almoçar, enquanto so funcionários do armazém estavam fora e um pouco de barulho era permitido. Geralmente comiam batatas, enlatados, sopa e qualquer outra coisa que os amigos que os ajudavam pudessem conseguir no mercado negro.


4) No quarto que Anne dividia com Fritz Pfeffer, ela procurava manter seus estudos em dia, fazendo atividades de línguas, matemática, história, taquigrafia e qualquer outro curso que pudesse ser comprado por correspondência. Era ali que ela também se dedicava a escrever em seu diário. A convivência entre Anne e o Sr. Pfeffer não devia ser nada fácil, principalmente devido à grande diferença de idade entre os dois. No livro, a passagem da briga pelo uso da escrivaninha é um bom exemplo do pé de guerra em que os dois viviam.


5) À noite, o cômodo se transformava no quarto do casal Van Pels.


6) Quarto de Otto, Edith e Margot.


7) No espaço cortado da ilustração, ficava o quarto de Peter Van Pels, assim como uma escada para o sótão. Como todas as janelas da casa tinham que ficar fechadas e cobertas, já que a vida lá fora continuava normalmente para aqueles que não eram judeus, o sótão era o único lugar onde as pessoas do anexo podiam ver o céu.

Pelos escritos de Anne podemos ter uma ideia de como era a rotina enclausurante do anexo. O principal desafio era combater o tédio e a convivência forçada e intensa entre as pessoas, o que não era fácil. Conhecemos todos os ocupantes do anexo pela perspectiva da jovem Anne, e em seus escritos ela usa algumas palavras duras não só contra a sua mãe, mas também contra os outros ocupantes do anexo. É preciso, porém, lembrar que a vida na clandestinidade não devia ser nada fácil, para nenhum deles, e defeitos... quem não tem? Inclusive Anne, que na época estava entrando na adolescência.


Todos estavam vivendo uma situação extenuante. Não devia ser fácil deixar tudo para trás de uma hora para outra e ir viver enclausurado, com medo constante e passando por privações de alimentos, liberdade e opiniões.


"Eu me sinto como um pássaro de asas cortadas, que fica se atirando

contra as barras da gaiola. 'Me deixem sair!', grita uma voz dentro de mim".,

Escreveu Anne em seu diário.

Desenho da empresa do pai de Anne. No destaque, o anexo secreto. Imagem: annefrank.org


Denúncia anônima?

Até hoje, não se sabe quem foi o traidor que delatou o esconderijo à polícia alemã, ou mesmo se houve um traidor. Durante as investigações, mais de 30 pessoas foram consideradas suspeitas de terem denunciado Anne Frank e outros fugitivos. Entre eles está Wihelm van Maaren, funcionário que trabalhava no andar de baixo do esconderijo do grupo. No entanto, por ausência de provas, ele não chegou a ser acusado.

Até dezembro de 2016, a hipótese mais aceita era a de que Anne Frank e os demais moradores do anexo secreto teriam sido vítimas de uma denúncia anônima. No entanto, um estudo recente indica que o esconderijo pode ter sido encontrado por acaso, durante uma inspeção para verificação de cupons de racionamento falsificados.

Alguns indícios realmente levam a acreditar que a família foi encontrada por acaso. Isso porque no momento em que foram descobertos, não havia nenhum veículo de transporte oficial que era usado para transportar pessoas em situação irregular.

Outro indício é inclusive relatado por Anne em seu diário. Em certa ocasião, dois homens que vendiam os cupons de alimentação para a família Frank foram presos, o que pode ter atraído a investigação para o anexo secreto em busca dos itens falsificados.

Uma equipe de mais de 20 pesquisadores forenses, criminologistas e pesquisadores de dados estão trabalhando no caso, nos mesmos moldes em que trabalham com casos arquivados, com tecnologias desse século para verificar pistas.

A equipe criou um modelo em 3D do esconderijo e analisou quais pontos poderiam ter dissipado ruídos para prédios vizinhos e andares inferiores do armazém. Além disso, inteligência artifcial está sendo utilizada para cruzar nomes e lugares e criar uma espécie de mapa, podendo levantar suspeitas e explicações de forma clara.

Possivelmente, o veredito destes pesquisadores será lançado em um livro, assim que as pesquisas forem concluídas.

Os últimos meses de Anne Frank

Em Auschwitz, há relatos sobre a força e coragem de Anne, mas ela foi pouco a pouco perdendo o seu brilho. Tornou-se mais calada e triste. Devido às màs condições de higiene, teve que lidar com infestações de piolhos e pulgas, e foi infectada pela sarna, o que a deixou bastante debilitada.

Campo de Bergen-Belsen. Foto: dw.com

Muito pouco se sabe sobre o tempo que Margot e Anne passaram em Bergen-Belsen. O campo estava superlotado, não havia comida e nem roupas, a água estava poluída e as condições de higiene eram péssimas. Havia várias holandesas que se uniram e procuravam se ajudar, mas as pessoas estavam doentes e famintas. Margot e Anne contraíram tifo e estavam muito fracas. Margot certo dia caiu do beliche e não se levantou mais. Anne morreu um ou dois dias depois. Há relatos de sobreviventes dizendo que, um dia, elas simplesmente não estavam mais lá.

As irmãs foram enterradas em uma vala comum, em local desconhecido.

O melhor material para conhecer um pouquinho dos últimos meses de vida de Anne são o documentário e o livro de Willy Lindwer, “Os sete últimos meses de Anne Frank”, também disponível em audiolivro.


Houve muitas críticas a respeito do trabalho dele, principalmente de que ele havia usado o nome de Anne para se autopromover, já que pouco se fala de Anne durante as entrevistas. Para mim, o valor do trabalho dele está justamente aí. Como eu disse, Anne era apenas mais uma menina, como tantas outras. Seria muito estranho se alguém, vivendo nas mesmas condições desumanas que ela, tivesse conseguido prestar atenção a cada detalhe do que acontecia com outra pessoa. O que Willy nos traz, ao contrário, é o relato de seis mulheres sobre a sua própria trajetória, e quando seus caminhos em algum momento se cruzaram com os de Anne. Algumas já a conheciam dos tempos de escola, outras a conheceram em Auschwitz ou Bergen-Belsen, e todas têm algum fragmento de história que nos ajudam a entender um pouquinho do horror que foi o Holocausto.

Lápide memorial em homenagem a Margot e Anne Frank em Bergen-Belsen. Na verdade, elas foram enterradas em uma vala comum, junto a muitos outros judeus que morreram no campo.

O museu "Casa de Anne Frank"

O anexo da Prinsengracht 263 abriu suas portas ao público em 3 de maio de 1960. Quando o diário se tornou famoso, pessoas de todo o mundo queriam visitar o Anexo Secreto, e o edifício foi transformado em museu. A pedido de Otto, o único sobrevivente entre os oito judeus que habitaram o esconderijo, o anexo secreto foi mantido sem mobília. Após a prisão de todos que moravam ali, ele havia sido esvaziado pelos nazistas e Otto queria mantê-lo dessa maneira, para que todos pudessem sentir a sensação de vazio que o lugar transmite. ⁠⠀


Na ocasião da abertura, Otto Frank disse: ‘Peço desculpas por não falar mais desta casa depois de hoje. Você entenderá que as memórias de tudo o que aconteceu aqui são muito poderosas. Só posso agradecer a todos pelo interesse que demonstraram em vir aqui. E espero que você continue apoiando o trabalho da Casa Anne Frank e do Centro Internacional da Juventude, moralmente e em todos os outros aspectos.''

Há alguns anos, a visita ao museu ganhou uma palestra introdutória que conta a história de Anne Frank e sua família. Os responsáveis pelo museu perceberam que, apesar das filas enormes de pessoas ávidas para visitar o anexo secreto, muitos o faziam apenas por saber que aquela era uma das principais atrações turísticas de Amsterdam, e nem sequer faziam ideia de quem era Anne Frank.


Na esquina, o museu "Casa de Anne Frank", na Prinsengracht 263, em Amsterdam. Foto: detechniekachternederland.nl

Realmente, apesar de perceber que há muita informação sobre Anne on-line, é difícil encaixar as peças do quebra-cabeças. Por isso, fiz uma linha do tempo para ajudar a entender melhor a trajetória dessa menina que, à sua maneira, conseguiu sobreviver e fez com que sua voz continuasse sendo ouvida por várias gerações.


(*) O vídeo está disponível no youtube.


Para quem não visitou o anexo, ou para aqueles que gostariam de revisitá-lo, é possível fazer um tour virtual.

"Essa é a grande questão: alguma vez serei capaz de escrever algo grande,

serei jornalista e escritora? Espero que sim. Eu espero muito que sim!"


O desejo de Anne Frank, que ela confiou ao seu diário no dia 5 de abril de 1944, tornou-se finalmente realidade: hoje ela tem reconhecimento mundial como uma jovem e talentosa escritora.




Ter um diário é uma experiência realmente estranha para uma pessoa como eu. Não somente porque nunca escrevi nada antes, mas também porque acho que mais tarde ninguém se interessará, nem mesmo eu, pelos pensamentos de uma garota de 13 anos. Bom, não faz mal. Tenho vontade de escrever e uma necessidade de desabafar tudo o que está preso em meu peito.


105 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

©2020 by Joy in Dutch - all rights reserved.