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A última grande enchente que abalou a Holanda

Atualizado: 29 de Mai de 2020

Você já deve ter ouvido falar que quase um terço da Holanda fica abaixo do nível do mar, certo? (se não, prometo que conto nos próximos posts)


Ao longo da história, os diques tiveram um papel fundamental no desenvolvimento do país, mas também houve maus momentos, como a grande enchente de 1953.


A casa da rua Sandoel 17, no pequeno município de Raamsdonksveer, na província de Brabante do Norte, nos ajuda a entender o que aconteceu.


A história


Na noite de sábado, 31 de janeiro de 1953, os clientes do pub da rua Sandoel foram para casa mais cedo do que o habitual.  Eles estavam preocupados porque o nível da água após a maré alta permanecia muito mais alto do que o normal.  A caminho de casa, eles avisaram os vizinhos, e as pessoas da extremidade baixa da Sandoel buscaram refúgio com os vizinhos na casa Sandoel 17. Quando a água começou a subir, todos foram para o sótão, mas o fluxo de água entre as casas minou o revestimento e, no meio da noite, a parede cedeu. Usando uma escada e com cordas amarradas na cintura, os moradores e seus visitantes conseguiram chegar em segurança aos vizinhos da porta ao lado.


A fundação da casa da Sandoel 17 foi destruída pela força da água. Foto do arquivo de Veers Erfgoed

Na manhã seguinte, todos embarcaram em um veículo anfíbio para ir a um local seco e seguro.  A foto tirada na época foi mostrada em todo o mundo. 


A pequena Truus Luijbregts morava naquela casa no momento do desastre, e uma parte significativa desta história é baseada nas lembranças de Truus sobre aquela noite. "Eu tinha apenas cinco anos de idade, mas lembro que uma parede se rompeu, que subimos uma escada e que eu fui levada do telhado em um barco", ela recorda.


Evacuação dos moradores da rua Sandoel. Foto de G. van der Werff

Durante uma única noite, 200.000 hectares de terra foram inundados. Linhas telefônicas foram destruídas. O contato com os lugares mais atingidos era extremamente difícil. No dia primeiro de fevereiro, imediatamente após a inundação noturna, os esforços de socorro começaram sem demora. Muitos voluntários foram para a área do desastre e a coleta de dinheiro e bens foi organizada fora da área do desastre, e também no exterior. Dias depois, tantas roupas haviam sido recolhidas que a Cruz Vermelha pediu a suspensão das atividades de coleta.


Os trabalhadores da Cruz Vermelha distribuíam a maior parte dos bens de socorro e forneceram ajuda de emergência imediata, como alimentos, cobertores, roupas e cuidados médicos. A longo prazo, as vítimas receberam eletrodomésticos, toalhas e lençóis, ferramentas, máquinas agrícolas e, se necessário, até mesmo novas casas.


Mais de 1.800 pessoas perderam suas vidas como consequência desse desastre. Cerca de 72 mil pessoas de repente ficaram desabrigadas e dezenas de milhares de animais morreram. Quase 50 mil casas sofreram danos, sendo que cerca de 5 mil foram danificadas de forma irreparável, e por isso muitas famílias se viram sem um teto sobre suas cabeças. 


Por meio da organização da Cruz Vermelha Holandesa, os Países Baixos receberam mais de 900 kits de outros países para construir casas pré-fabricadas. Só a Noruega doou 326 deles.


Um arquiteto norueguês visitou a Holanda no dia 12 de fevereiro de 1953 para determinar que tipos de casas seriam adequadas aqui. Imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, a Noruega construiu muitas casas para a parte norte do país, já que cerca de 90% de todas as casas nesta área da Noruega foram destruídas durante a guerra. Um catálogo de casas intitulado Sketchbook of Reconstruction oferecia 26 tipos diferentes de casas pré-fabricadas para venda, pois casas padronizadas podem ser construídas rapidamente. Com as autoridades holandesas, a decisão foi sobre o tipo de casa 216, mas, como os costumes holandeses são diferentes, o design foi adaptado.  A sauna desapareceu; o chuveiro e o banheiro que estavam no porão foram para trás da porta da frente; o layout do térreo foi alterado e a entrada da frente mudou de posição.  Ainda assim, continuou sendo uma casa norueguesa: com pisos termicamente isolados e sótão, vidros duplos com fechaduras e dobradiças norueguesas e tudo feito em madeira. O chuveiro e a bela escadaria permanente fariam a casa se destacar de outras casas comuns em Raamsdonksveer. 


Em março, o primeiro lote de casas construídas pelos noruegueses já estavam a caminho da Holanda. Em cada uma delas, havia uma foto pendurada ao lado das escadas, com texto impresso explicando que a casa era um presente do povo norueguês por meio da Cruz Vermelha. 


Em 2 de março de 1953, o jornal norueguês Aftenposten refere que o tipo de habitação pré-fabricada 216 é enviado para as áreas propensas a inundações nos Países Baixos.

E então, depois de passar mais de um ano em moradias temporárias, a família Luijbregts se mudou para uma casa doada pela Noruega em junho de 1954. Ela foi construída no local de sua antiga casa.  A madeira, o isolamento térmico, o vidro duplo e o chuveiro eram incomuns na época, e eles moraram felizes nesta casa por muitos anos.


Casa da Sandoel 17 em 6 de março de 1955. A família Luijbregts teve o prazer de morar nesta casa por 31 anos, a partir do dia 23 de junho de 1954. Foto de arquivo de Truus Luijbregts

Mas afinal, o que aconteceu em Raamsdonksveer?


Em 1940, o comitê de tempestades marítimas já havia concluído que os diques no sudoeste da Holanda precisavam ser reforçados.  Porém, após a Segunda Guerra Mundial e a consequente necessidade de reconstrução, a elevação dos diques não recebeu prioridade. Como resultado, em 1953 os diques não forneceram proteção adequada. A violenta tempestade, que atingiu força 11 na Escala de Beaufort, forçou a água do mar por sobre os diques, e muitos não aguentaram e cederam, inundando grandes áreas.


Os moradores locais conheciam os perigos da cheia. Muitos mantinham pranchas e sacos de areia perto de suas casas para proteção em caso de alta do nível da água.  Durante a tempestade na noite de 31 de janeiro de 1953, quando a água não recuou após a maré alta, os habitantes locais entenderam o perigo que isso representava.  Aqueles que viviam em áreas baixas alertaram-se mutuamente ou ouviram a sirene do alarme municipal e abrigaram-se em locais mais seguros. Outros transferiram seus eletrodomésticos e provisões para seus sótãos. Durante a noite, quando a água também chegou às casas mais altas, os ocupantes usaram escadas para subir em seus sótãos. Em alguns locais, a água atingiu uma altura de 2,6 metros acima do nível do solo.


Um buraco de 80m de largura se abriu nos diques.

"Nunca mais!"  foi a reação geral após o desastre. Preparações para a Lei da Delta e as obras da Delta funcionaram três semanas após o desastre. O primeiro grande projeto, a Barreira Contra Surtos de Tempestade no rio IJssel, foi concluído em 1958. O último, a Barreira Maeslant, em Nieuwe Waterweh, foi concluído em 1997.


Em 2008, o Comitê Delta concluiu que deve-se continuar a batalha contra a água. Os diques já não cumpriram as normas de segurança no passado e, além disso, o aumento do nível do mar e as mudanças climáticas, que causam níveis mais altos de água, foram vistos como ameaças. Uma nova Lei Delta entrou em vigor em 2011.


As barragens e pontes da Delta são mais do que uma proteção contra as águas. Elas forma uma rodovia, que ajuda a garantir que a área inundada em 1953 seja muito menos isolada do que antes do desastre. Elas fornecem incentivos econômicos para a região. Os habitantes locais podem chegar mais facilmente às áreas industriais de Roterdã e Brabante do Oeste, onde podem encontrar trabalho. E elas também servem como um ímã para atrair turistas para a área costeira no verão!


Os diques impedem que a água do mar invada a Holanda. Foto de satélite da NASA, 24 de setembro de 2002


Para saber mais sobre essa história, há dois lugares interessantes para serem visitados: o Openluchtmuseum, em Arnhem, e o Watersnoodmuseum, em Ouwerkerk.

A casa original da rua Sandoel 17 foi demolida em 2010, mas uma réplica exata foi construída no Openluchtmuseum de Arnhem, e pode ser visitada. Toda a história é recontada ali. Como parte da exposição, são mostrados exemplos da ajuda de emergência, incluindo um martelo e uma bigorna, uma garrafa térmica, corta-sebes, cobertores, uma toalha de chá, uma concha, um fogão a querosene, uma cafeteira e, claro, a própria casa!






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